domingo, 2 de outubro de 2016

SANTA MISSA NA IGREJA DA IMACULADA

SANTA MISSA NA IGREJA DA IMACULADA
HOMILIA DO SANTO PADRE
Centro salesiano-Baku
Domingo, 2 de outubro de 2016


A palavra de Deus mostra-nos os aspectos essenciais da vida cristã, hoje, que são dois: e serviço. Falando de fé, são abordados dois pedidos especiais de Deus.
O primeiro é que o profeta Habacuc, pedia a Deus para intervir e restabelecer a justiça e paz que homens têm quebrado com violência, brigas e contendas: "quanto tempo, ó Senhor, ele diz, vou pedir ajuda e não ser atendido?» (Ab 1,2). Deus, respondendo-nos, não intervém directamente, não resolve a situação de forma abrupta, não está presente à força. Pelo contrário, convida-o a esperar pacientemente, sem nunca perder a esperança; sobretudo, salienta a importância da . Porque o homem viverá pela sua fé (cf. Ab 2,4). Assim Deus faz connosco também: não assegura os nossos desejos de mudar o mundo e os outros imediatamente e continuamente, mas acima de tudo visa curar o coração, o meu coração, o teu coração, o coração de cada um; Deus muda o mundo, mudando os nossos corações e Ele não pode fazer isto sem nós. O senhor deseja, de facto, que abramos a porta do coração, a fim de poder entrar nas nossas vidas. E esta abertura para Ele, esta confiança n’Ele é precisamente "a vitória que venceu o mundo: a nossa fé" (1 Jo 5,4). Porque, quando Deus encontra um coração aberto e confiante, pode realizar maravilhas.
Mas ter fé, uma fé viva, não é fácil e então surge o segundo pedido, aquele que, no Evangelho, os apóstolos fazem ao Senhor, “Aumenta a nossa fé! " (Lc 17,6). É um bom pedido, uma oração que nós também podemos endereçar a Deus todos os dias. Mas a resposta divina é surpreendente e mesmo assim fica o pedido: "se tivesses fé...” É Ele que nos pede para termos fé. Porque a fé, que é um dom de Deus, deve sempre ser pedida e também cultivada da nossa parte. Não é uma força mágica que desce do céu, não um "dote" que se recebe uma vez para sempre e nem mesmo é um superpoder que serve para resolver os problemas da vida. Porque uma fé útil para satisfazer as nossas necessidades seria uma fé egoísta, toda centrada em nós. A não deve ser confundida com o estar bem ou sentir-se bem, com o ser confortado no ânimo porque temos um pouco de paz no coração. A fé é o fio de ouro que nos une ao Senhor, a pura alegria de estar com Ele, de estar unido a Ele; é o dom que vale a vida inteira, mas que dá frutos, se fizermos a nossa parte.
E qual é a nossa parte? Jesus Cristo faz-nos perceber que é o serviço. No Evangelho, de facto, o Senhor faz imediatamente às palavras sobre o poder da fé seguir aquelas palavras do serviço. Fé e serviço não podem ser separados, na verdade estão intimamente ligados, atados, juntos. Para me explicar, gostaria de usar uma imagem para vós muito familiar, que é a de um lindo tapete: os vossos tapetes são autênticas obras de arte e provêm de uma história muito antiga. Mesmo a vida cristã de cada um de vós vem de longe; é um dom que recebemos na Igreja e que vem do coração de Deus, nosso Pai, que quer fazer de cada um de nós uma obra-prima da criação e da história. Cada tapete, como bem sabem, é todo tecido de acordo com a urdidura e a trama; só com esta estrutura, o conjunto resulta bem composto e harmonioso. Assim é com a vida cristã: vai sendo todos os dias pacientemente tecida numa trama e urdidura bem definidas: a trama da fé e a urdidura do serviço. Quando a fé se liga ao serviço, o coração permanece aberto e jovem e se expande a fazer o bem. Então a fé, como Jesus Cristo diz no Evangelho, torna-se poderosa, faz maravilhas. Para caminharmos por esta estrada, agora madura e tornada forte, a condição é manter-se sempre a unida ao serviço.
Mas o que é o serviço? Podemos pensar que consiste apenas em ser fiel às suas funções ou fazer boas obras. Mas para Jesus Cristo é muito mais do que isso. No Evangelho de hoje, Ele nos pede, mesmo com palavras muito fortes, radicais, uma disponibilidade total, uma vida totalmente disponível, sem cálculo e sem ajuda. Porque é Jesus Cristo tão exigente? Porque Ele nos amou assim, sendo nosso servidor "até ao fim" (Jo 13,1), vindo "para servir e dar a Sua vida" (Mc 10,45). E isto acontece todas as vezes que celebramos a Eucaristia: o Senhor está no meio de nós e, portanto nós podemos oferecer-nos para servi-lo e amá-lo. É sempre Ele que nos precede, servindo-nos e amando-nos mais do que podemos imaginar e merecer. Ele nos dá a Sua própria vida. E convida-nos a imitá-lo, dizendo "se alguém me quiser servir, siga-me" (Jo 12,26).
Portanto, não somos chamados a servir apenas para obter uma recompensa, mas para imitar Jesus Cristo que se tornou nosso servidor por Amor. E não somos chamados para servir a cada momento, mas para viver servindo. O serviço é então um estilo de vida que engloba em si todo o estilo de vida cristão: servir a Deus na adoração e na oração; estar aberto e disponível; amar concretamente o próximo; esforçar-se ansiosamente para o bem comum.
Não faltam para os crentes as tentações que nos levam para longe do estilo de serviço e acabam por tornar a vida sem serviço. Aqui também podemos destacar duas: uma é deixar arrefecer o coração. Um coração morno fecha-se numa vida preguiçosa e sufoca o fogo do Amor. Quem é tépido, vive para satisfazer uma vida confortável, que nunca está o suficiente e nunca está satisfeito; gradualmente acaba por se conformar com uma vida de mediocridade. O tépido reserva a Deus e aos outros "percentagens" do seu tempo e do seu coração sem nunca exagerar, tentando sempre desviar-se. Assim a sua vida perde sabor: torna-se como um chá que foi muito bom, mas que, depois de arrefecido, já não se consegue beber. No entanto, estou convencido de que vós, olhando para os exemplos daqueles que vos precedem na fé, não vão deixar arrefecer o coração. Toda a Igreja que tem por vós uma simpatia especial, vos olha e incentiva: sois um pequeno rebanho tão precioso aos olhos de Deus!
Uma segunda tentação, na qual se pode cair não porque se é passivo, mas porque se é "muito activo": a do pensar dos mestres, ocupados apenas para ganhar crédito e ser alguém. Assim o serviço torna-se um meio, não um fim porque o fim é alcançar o prestígio; em seguida, vem o poder, o desejo de ser grande. «Entre vós - recorda Jesus Cristo a todos nós – não seja assim: mas quem quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servidor "(Mt 20,26). Assim se edifica e embeleza a Igreja. Retomo a imagem do tapete, aplicando-a à vossa bela Comunidade: cada um de vós é como um lindo fio de seda, mas apenas se estiverem bem entrançados os fios individuais se pode criar uma bela composição; sozinhos, não se consegue. Permaneçam sempre unidos, vivendo humildemente em caridade e alegria; o Senhor que cria harmonia nas diferenças, cuidará de vós.
Que nos ajude a intercessão da Imaculada Virgem e dos Santos, especialmente de Santa Teresa de Calcutá, cujos frutos de fé e serviço estão no meio de vós. Acolhamos algumas das suas palavras maravilhosas que resumem a mensagem de hoje: "o fruto da fé é o Amor. O fruto do amor é o Serviço. O fruto do serviço é a Paz» (O Caminho Simples, introdução).


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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO NA GEÓRGIA E NO AZERBAIJÃO

SANTA MISSA
HOMILIA DO SANTO PADRE
Estádio M. Meskhi-Tbilissi
Sábado, 1 de outubro de 2016


Entre os muitos tesouros deste belo país destaca-se o grande valor das mulheres. Elas ", escreveu a Santa Teresinha do Menino Jesus, cuja memória fazemos hoje – ' amam a Deus em número muito superior ao dos homens" (escritos autobiográficos, manuscrito A, 66). Cá na Geórgia, são muitas as avós e mães que continuam a preservar e transmitir a fé, semeada nesta terra por Santo Nino e trazem a água fresca da consolação de Deus em tantas situações de conflito e de deserto.
Isto nos ajuda a compreender a beleza do que o Senhor nos diz na Primeira Leitura de hoje: «como a mãe conforta o seu filho, eu vos consolarei "(Is 66,13). Como uma mãe toma sobre si as amarguras e trabalhos dos seus filhos assim Deus ama tomar conta dos nossos pecados e das nossas preocupações; Ele, que nos conhece e nos ama infinitamente, é sensível à nossa oração e sabe secar as nossas lágrimas. Protegendo-nos, sempre se comove e enternece com amor visceral porque, além do mal de que somos capazes, somos seus filhos; deseja pegar-nos em seus braços, proteger-nos, libertar-nos dos perigos e do mal. Deixemos ressoar em nossos corações estas palavras que hoje nos são dirigidas: "Como mãe, eu vos consolarei."
O consolo de que precisamos, entre as turbulências e vicissitudes da vida, é a presença de Deus no nosso coração. Porque a Sua presença em nós é a fonte da verdadeira consolação, que permanece, que nos livra do mal, traz a paz e faz crescer a alegria. Por este motivo, se queremos viver consolados, precisamos dar espaço ao Senhor nas nossas vidas. E para que o senhor habite permanentemente em nós, temos de abrir a porta e não mantê-lo fora de nós. São os portões da Consolação que devemos manter sempre abertos porque Jesus Cristo ama lá entrar: o Evangelho lido todos os dias e trazido sempre connosco, a oração silenciosa e de adoração, a Confissão, a Eucaristia. Por estes portões, o Senhor entra e dá um novo sabor às coisas. Mas quando a porta do coração se fecha, a sua Luz não vem e permanecemos no escuro. Então nos acostumamos ao pessimismo, a coisas que não vão embora, a realidades que nunca mudam. E acabamos por nos fecharmos na tristeza, no sótão da angústia, só dentro de nós. Se, pelo contrário, abrimos as portas da consolação de par em par, entra a luz do Senhor!
Mas Deus não nos conforta somente no coração; o profeta Isaías de facto acrescenta: "Em Jerusalém serão consolados " (66,13). Em Jerusalém, a cidade de Deus, na Comunidade: quando estamos unidos, quando há comunhão entre nós, a consolação de Deus age. Na Igreja há consolo, é a Casa da Consolação: aqui é que Deus deseja consolar. Podemos nos questionar: eu, que estou na Igreja, sou portador da Consolação de Deus? Sei aceitar os outros como hóspedes e consolar quem vejo cansado e decepcionado? Mesmo quando submetidos à aflições e fechamentos, o cristão é sempre chamado a infundir esperança a quem se demitiu de viver, a reanimar aqueles que estão desanimados, a trazer a luz de Jesus Cristo, o calor da Sua presença, o restauro do Seu perdão. Muitos sofrem, experimentam provações e injustiças, vivem em ansiedade. Precisam da unção do coração, desta consolação do Senhor que não tira os problemas, mas dá o poder do Amor para poder trazer consigo a dor em paz. Receber e trazer consigo a consolação de Deus: esta missão da Igreja é urgente. 
Querido irmãos e irmãs, sentamo-nos chamados a isto: a não nos fecharmos em nós ou sobre o que se passa à nossa volta ou lamentarmos alguma desarmonia que vemos entre nós. Não é bom nos acostumarmos a um "microclima" de Igreja fechada; é bom partilhar amplos horizontes, abrir horizontes de esperança, viver a coragem humilde de abrir as portas e sair de nós.
Há, no entanto, uma condição funda para receber a consolação de Deus, que a sua Palavra hoje nos recorda: tornarmo-nos pequenos como crianças (cf. Mt 18,3-4), sermos "como um bebé nos braços de sua mãe" (Sal 130,2). Para receber o amor de Deus, é necessária esta dependência do coração: apenas os pequenos, na verdade, podem estar nos braços da mãe.
Quem se faz pequeno como uma criança – Jesus Cristo nos diz, "é o maior no Reino dos céus" (Mt 18,4). A verdadeira grandeza do homem é fazer-se pequeno aos olhos de Deus. Porque não se conhece Deus com pensamentos elevados e muito estudo, mas com a dependência de um coração humilde e confiante. Para ser grande para o Altíssimo não se precisa de acumular honras e prestígio, bens e sucessos terrenos, mas sair de si mesmo. A criança é propriamente aquela que não tem nada para dar e tem tudo a receber. É frágil, depende do pai e mãe. Quem se faz pequeno como uma criança torna-se pobre, mas rico de Deus.
As crianças, que não têm nenhuma dificuldade em entender Deus, têm tanto a nos ensinar: Diz-se que elas fazem grandes coisas com quem não lhes oferece resistência, que é simples e sincero, desprovido de duplicidade. O Evangelho nos mostra, onde se operam grandes maravilhas com pequenas coisas: com alguns pães e dois peixes (cf. Mt 14.15-20), com um grão de mostarda (cf. Mc 4,30 -32), com um grão de trigo que morre na terra (cf. Jn 12,24), com um único copo de água dado (cf. Mt 10,42), com duas moedas de uma pobre viúva (cf. LC 21.1-4) com a humildade de Maria, a servidora do Senhor (cf. LC 1,46 -55).
Eis a grandeza surpreendente de Deus, de um Deus cheio de surpresas e que ama as surpresas: nunca percamos o desejo e a confiança das surpresas de Deus! E faz bem nos recordarmos que estamos sempre e acima de tudo Seus filhos: não mestres da vida, mas filhos do Pai; não adultos autónomos e autossuficientes, mas sempre filhos que precisam de ser abraçados, de receber amor e perdão. Bem-aventuradas as comunidades cristãs que vivem esta simplicidade evangélica genuína! Pobres de meios económicos, estão ricos de Deus. Abençoados são os pastores que não usam a lógica do sucesso mundano, mas seguem a Lei do Amor: o acolhimento, a escuta, o serviço. Abençoada a Igreja que não se agarra aos critérios do funcionalismo e da eficiência organizacional e não presta atenção ao retorno da imagem. Pequeno e amado rebanho da Geórgia, que tanto se dedica à caridade e à formação, acolhe o incentivo do Bom Pastor, confia nele que te prende sobre os ombros e te consola!
Vou resumir estes pensamentos com algumas palavras de Santa Teresinha de Lisieux, que hoje nos recordamos. Ela nos mostra o seu "jeitinho" para Deus, "o abandono da criança, que adormece sem medo nos braços do seu pai" porque "Jesus Cristo não exige grandes gestos, mas somente confiança e gratidão" (escritos autobiográficos, manuscrito B, 1). Infelizmente - ela escreveu então e é verdade ainda hoje – Deus encontra “poucos corações que se abandonam a Ele sem reservas, que compreendem toda a ternura de Seu Amor infinito "(ibid). A jovem Santa e doutora da Igreja, no entanto, era especialista na ciência do Amor "(ibid.) e nos ensina que" a caridade perfeita consiste em aguentar os defeitos dos outros, em não se surpreender com as suas fraquezas, em ser edificado até nos mínimos actos de virtude que se os vê praticar»; também nos lembra que a "caridade não pode ficar fechada no fundo do coração" (manuscrito C, 12). Pedimos hoje, todos juntos, a graça de um coração simples, que acredita e vive no poder suave do Amor; pedimos para viver com a serena e total confiança na misericórdia de Deus.

SAUDAÇÃO AO FINAL DA SANTA MISSA
Sou grato a Monsenhor Yunus as suas amáveis palavras que me dirigiu em nome das comunidades latina, arménia e assíriocaldeia. Saúdo o Patriarca Sako e os Bispos caldeus, Monsenhor Minassian e quantos vieram da vizinha Arménia e todos vós, queridos fiéis de diferentes regiões da Geórgia. Agradeço ao Senhor Presidente, às autoridades, aos queridos amigos da Igreja Apostólica Armena e das denominações cristãs que se reuniram aqui e de um modo particular os fiéis da Igreja Ortodoxa Georgiana presentes. Entretanto peço-vos que, por favor, rezem por mim, eu vos garanto que me vou lembrar de todos vós e renovo os meus agradecimentos. Didi madloba! [Muito obrigado!]




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JUBILEU DOS CATEQUISTAS

JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
Praça São Pedro
Domingo, 25 de setembro de 2016


Na segunda Leitura, o apóstolo Paulo dirige a Timóteo – e a nós também – algumas recomendações que tinha a peito. Entre elas, pede que «guarde o mandamento, sem mancha nem culpa» (1 Tm 6, 14). Fala apenas de um mandamento, parecendo querer fazer com que o nosso olhar se mantenha fixo no que é essencial na fé. De facto, São Paulo não recomenda uma multidão de pontos e aspectos, mas sublinha o centro da fé. Este centro à volta do qual tudo gira, este coração pulsante que a tudo dá vida é o anúncio pascal, o primeiro anúncio: O Senhor Jesus Cristo ressuscitou, o Senhor Jesus Cristo ama-te, por ti deu a Sua vida; ressuscitado e vivo, está ao teu lado e interessa-Se por ti todos os dias. Isto nunca o devemos esquecer.
Neste Jubileu dos Catequistas, pede-se-nos para não nos cansarmos de colocar em primeiro lugar o anúncio principal da fé: o Senhor ressuscitou. Não há conteúdos mais importantes, nada é mais firme e actual. Cada conteúdo da fé torna-se perfeito se se mantiver ligado a este centro, se for permeado pelo anúncio pascal. Se, pelo contrário, se isolar, perde sentido e força. Somos chamados continuamente a viver e anunciar a Boa-Nova do amor do Senhor: «Jesus Cristo ama-te verdadeiramente, tal como és. Dá-Lhe lugar: apesar das decepções e feridas da vida, deixa-Lhe a possibilidade de te amar. Não te decepcionará».
O mandamento de que fala São Paulo faz-nos pensar também no mandamento novo de Jesus Cristo: «Que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15, 12). É amando que se anuncia Deus-Amor: não à força de convencer, nunca impondo a verdade nem mesmo obstinando-se em torno de alguma obrigação religiosa ou moral. Anuncia-se Deus, encontrando as pessoas, com atenção à sua história e ao seu caminho. Porque o Senhor não é uma ideia, mas uma Pessoa viva: a sua mensagem comunica-se através do testemunho simples e verdadeiro, da escuta e acolhimento, da alegria que se irradia. Não se fala bem de Jesus Cristo quando nos mostramos tristes nem se transmite a beleza de Deus, limitando-nos a fazer bonitos sermões. O Deus da Esperança anuncia-Se vivendo no dia-a-dia o Evangelho da Caridade, sem medo de o testemunhar inclusive com novas formas de anúncio.
O Evangelho deste domingo ajuda-nos a compreender o que significa amar, especialmente a evitar alguns riscos. Na parábola, há um homem rico que não se dá conta de Lázaro, um pobre que «jazia ao seu portão» (Lc 16, 20). Na realidade, este rico não faz mal a ninguém, não se diz que é mau e, todavia tem uma enfermidade pior do que a de Lázaro, apesar deste estar «coberto de chagas» (ibid.): este rico sofre de uma forte cegueira porque não consegue olhar para além do seu mundo, feito de banquetes e roupa fina. Não vê mais além da porta de sua casa, onde jazia Lázaro porque não se importa com o que acontece lá fora. Não vê com os olhos porque não sente com o coração. No seu coração, entrou a mundanidade que anestesia a alma. A mundanidade é como um «buraco negro» que engole o bem, que apaga o amor, que absorve tudo no próprio eu. Então só se vêem as aparências e não nos damos conta dos outros porque nos tornamos indiferentes a tudo. Quem sofre desta grave cegueira, assume muitas vezes comportamentos «estrábicos»: olha com reverência as pessoas famosas, de alto nível, admiradas pelo mundo e afasta o olhar dos inúmeros Lázaros de hoje, dos pobres e dos doentes que são os predilectos do Senhor.
Mas o Senhor olha para quem é transcurado e rejeitado pelo mundo. Lázaro é o único personagem, em todas as parábolas de Jesus Cristo a ser designado pelo nome. O seu nome significa «Deus ajuda». Deus não o esquece… Acolhê-lo-á no banquete do seu Reino, juntamente com Abraão, numa rica comunhão de afectos. Ao contrário, na parábola, o homem rico não tem sequer um nome; a sua vida cai esquecida porque quem vive para si mesmo não faz a história. E um cristão deve fazer a história; deve sair de si mesmo para fazer a história. Mas quem vive para si mesmo, não faz a história. A insensibilidade de hoje escava abismos intransponíveis para sempre. E hoje caímos nesta doença da indiferença, do egoísmo, da mundanidade.
E há outro detalhe na parábola: um contraste. A vida opulenta deste homem sem nome é descrita com ostentação: nele, carências e direitos, tudo é espalhafatoso. Mesmo na morte, insiste em ser ajudado e pretende os seus interesses. Ao contrário, a pobreza de Lázaro é expressa com grande dignidade: da sua boca não saem lamentações, protestos nem palavras de desprezo. É uma válida lição: como servidores da palavra de Jesus Cristo, somos chamados a não ostentar aparência nem procurar glória; não podemos sequer ser tristes ou lastimosos. Não sejamos profetas da desgraça que se comprazem em lobrigar perigos ou desvios; não sejamos pessoas que vivem entrincheiradas nos seus ambientes, proferindo juízos amargos sobre a sociedade, sobre a Igreja, sobre tudo e todos, poluindo o mundo de negatividade. O cepticismo lamentoso não se coaduna a quem vive familiarizado com a Palavra de Deus.
Quem anuncia a esperança de Jesus Cristo é portador de alegria e vê longe, tem pela frente horizontes e não um muro que o impede de ver; vê longe porque sabe olhar para além do mal e dos problemas. Ao mesmo tempo, vê bem ao perto porque está atento ao próximo e às suas necessidades. Hoje o Senhor pede-nos isto: face aos inúmeros Lázaros que vemos, somos chamados a inquietar-nos, a encontrar formas de os atender e ajudar, sem delegar sempre a outras pessoas nem dizer: «Ajudar-te-ei amanhã, hoje não tenho tempo, ajudar-te-ei amanhã». E isto é um pecado. O tempo gasto a socorrer os outros é tempo dado a Jesus Cristo, é amor que permanece: é o nosso tesouro no céu, que nos asseguramos cá na Terra.
Concluindo, amados catequistas e queridos irmãos e irmãs, que o Senhor nos dê a graça de sermos renovados cada dia pela alegria do primeiro anúncio: Jesus Cristo morreu e ressuscitou, Jesus Cristo ama-nos pessoalmente! Que Ele nos dê a força de viver e anunciar o mandamento do amor, vencendo a cegueira da aparência e as tristezas mundanas. Que nos torne sensíveis aos pobres que não são um apêndice do Evangelho, mas a página central, sempre aberta diante de todos.

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